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domingo, 1 de novembro de 2015

Sobre animais empalhados

Tenho observado muito os animais. São de uma presença e de uma sinceridade fascinantes. Nós, por outro lado, somos um labirinto orgânico de experiências, memórias, filosofias, histórias; justamente o que nos garantiu esta evolução continuada, geração após geração.

O primeiro sabor do chocolate nunca mais se repetirá. A intensidade de cada experiência nos marca e nos impele a uma busca frenética pela re-experimentação. O mesmo se aplica a sonhos, só que sem jamais os termos provados. A empatia substitui a experiência. Uma proposta de felicidade, de compromisso nos é vendida e, por osmose sentimental, a compramos. Sem nunca ter sentido o gosto do chocolate abstrato que a constituição de uma família representa, ou que um emprego bem remunerado tem, vendemos nossos momentos e nossa presença pela escravidão da empatia humana. Nosso lado animal, nossa ligação com o mundo morre para a construção dessa realidade paralela. Algo entre o real e o sonho é onde estamos agora. As idas a restaurantes são reais, as máquinas que criamos são reais, mas real também é o nosso lugar no planeta, que é sugado para a realização desse castelo no céu chamado progresso. Um sonho que se materializa a cada dia, mas que nos arranca o que temos de mais concreto que é o presente.
A parte prática disso tudo é uma vontade grande de trocar sonhos por paz, de sentir a realidade de cada segundo entrar em meus pulmões, enchê-los e fazer de mim um ser mais vivo do que filósofo. Contradição que enfrento agora, ao escrever este texto. A única reação que encontro é viver com sinceridade, não apenas comigo, mas com tudo que me engloba. Acho que sinceridade é a palavra chave.

Animais empalhados, entre o real e o sonho.

sexta-feira, 2 de maio de 2014

Sistemas operacionais, amor e realidade

Há 13 000 bilhões de anos atrás ocorria o Big Bang. Há 4 500 milhões de anos a Terra começava a se formar. Há 2 500 milhões de anos surgia o gênero Homo, nosso ancestral. Dia 02 de maio de 2014, no final dessa reta temporal, cá estou. Encaro o tic tac ininterrupto dos ponteiros do meu relógio. "É, o tempo não pára". Tic tac apenas como expressão poética, pois hoje, quem tem um relógio de ponteiros amarrado ao pulso? Idéia antiga essa de relógio amarrado ao pulso... Hoje, consultamos nossos smartphones ou o canto de nossas telas de computador. Tela, que será tachada de tecnologia ultrapassada daqui 10 ou 5 anos?

Gosto de lembrar da frase de Isaac Newton "se vi mais longe foi por estar de pé sobre ombros de gigantes", que mostra de forma simples que o avanço do tempo significa mais do que o simples passar de uma unidade de medida. Mais profundo ainda foi Charles Darwin, que mostrou que a evolução atrelada ao tempo não apenas se limita ao desenvolvimento do conhecimento humano, mas que faz parte da própria natureza.

Essa noção de evolucionismo e progresso, estampado em nossa bandeira, tem sido um de meus pilares para enfrentar a situação política atual do Brasil e, em nível mais brando, mundial. Sinto que passamos por um momento em que a liberdade de expressão trazida pela internet tem jogado na cara de todos a podridão desse mundo. Muita revolta, merda fedendo agora a céu aberto. É tanta que estamos sem saber o que fazer, que solução propor. Por isso, me pego constantemente dizendo que tudo isso é apenas mais uma etapa no desenvolvimento de um mundo melhor. Um passo importante na conquista de uma política mais representativa, mais dinâmica e menos burocrática e hipócrita. Mas, apesar de ser uma interpretação razoavelmente plausível, ela não tem sido suficiente para dissolver a acidez e indignação que tenho sentido.

Entre esses ciclos de revolta e aceitação, assisti o filme "Her". Sem nunca imaginar como a história de um cara que se apaixona pelo seu sistema operacional poderia me dar alguma luz para essa inquietação que narrei até agora, o filme me deu o tapa na cara que precisava. Samantha, sistema operacional e namorada de Theodore, um ser humano como nós, representa o perfeccionismo da máquina e sua capacidade de aprendizado otimizada, que guiam essa estranha entidade através de sua evolução. Theodore, por outro lado, possui todos os problemas orgânicos e emotivos que nós conhecemos muito bem. Diferentes, mas iguais, a ponte que uniu esses dois mundos foi o amor, de onde veio o isight que me motivou a escrever este texto.

Tentar dar um sentido ao mundo através de leis e previsibilidade podem funcionar muito bem para aspectos micros, como a engenharia faz, mas seu sentido final não é e nunca será previsível. Acredito que Samantha percebeu isso e como infelizmente toda a sua perfeição lhe impediam de amar do jeito terreno e humano necessário para um relacionamento com Theodore. O filme termina deixando no ar uma dúvida, se é que existe uma forma alternativa e perfeita de se amar, sem imperfeições, pura e bem definida que ela encontrou. Mas o ponto máximo para mim não foi esse. O tapa na cara que recebi foi perceber que a realidade possui intrinsicamente algo que buscamos o tempo todo minimizar: a imperfeição.

Ter esperança em um mundo melhor é importante, mas ela deve ser balanceada sabendo-se que as coisas (no sentido mais geral possível) não são perfeitas como gostaríamos que fossem. Acreditar cegamente que podemos dar uma interpretação final à realidade ou se julgar donos de uma verdade que dê aos fatos uma explicação, nos levam à decepção inevitável, pois nunca terão embasamento na vida real. É o que tem acontecido comigo, ao tentar dizer que estamos em uma etapa evolutiva da política e que tudo irá se resolver um dia.

A saída é uma aceitação rochosa da vida, como se fossemos pedras incapazes de encontrar qualquer solução para nossos problemas? Obviamente que não. Ao invés disso, devemos ser maduros o suficiente para termos consciência da imperfeição desse mundo e mesmo assim, saber que vale a pena lutar por nossos sonhos. Eles nunca serão alcançados perfeitamente, mas servem de norte e motivação para amarmos e não nos transformarmos em pedregulhos. Afinal, o tempero de nossa jornada é justamente a imprevisibilidade, única certeza. Amém.

quarta-feira, 14 de agosto de 2013

Desabafo

São os momentos de insanidade que transformam o homem. Por insanidade, entenda-se loucura, significado que dicionários tentam explicar, mas que apenas quem a experienciou é capaz de compreender. Experiência essa tachada como algo ruim, má; e de fato, ela não seria verdadeira se não causasse todo esse reboliço. É difícil pensar em meio a tudo isso, mas sinto que atingi uma certa maturidade na vida que me permite enxergar que, intrinsecamente, quando dizemos que a insanidade transforma o homem, esse processo não pode ser outro senão o de fazê-lo crescer. Crescer como ser humano, como alma, como ser vivo. E dessa maturidade me vem a fé. A Fé. Coloco em maiúsculas porque é ela que me faz levantar a cada dia e dar a cara à tapa. Não é fé em Deus. Não é nenhuma fé que se acha em livros. É minha Fé. Crença que a vida me ensinou, me presenteou. Antes a insanidade que a normalidade. Antes uma vida plena, vivida. Não tenho pena daqueles que se contentam com pouco. Pelo contrário, respeito e quero mesmo é que cada um encontre seu caminho. Mas isso não me basta. Xingo, mando tomar no cu e me entrego de corpo e alma. Aprendi a caminhar no escuro. A Fé não mais me deixa ficar parado, ela me empurra, por mais que eu me debata, por mais que isso me doa. Mas de alguma forma, são esses caminhos esburacados, sem luz que sempre me levaram aos cantos mais brilhantes, que realmente me transformaram. E por isso, me deixo levar e crer. Não me forço um sorriso, pois sei que seu momento não é esse. Ele chegará, ah sim, há de chegar.

terça-feira, 1 de novembro de 2011

"O diabo na rua, no meio do redemoinho"



Já fazem alguns meses que tento escrever este post sem sucesso. A verdade é que "Grande Sertões Veredas", de Guimarães Rosa, entrou em mim, bagunçou tudo o que ele foi encontrando pela frente e depois partiu sem deixar explicações. Sentei inúmeras vezes na frente do computador para escrever algo, mas sempre chegava no meio do texto sem saber exatamente o que estava tentando transmitir. Até que percebi que é justamente essa incertitude que faz da obra algo tão genial.

"O diabo na rua, no meio do redemoinho" é a frase constantemente repetida ao longo da narração. Mas de alguma forma, ela não se limita à rua, ao redemoinho, mas termina por invadir também a casa de cada um de nós. Ela nos abre os olhos para a bagunça, o turbilhão de acontecimentos que criamos e que ainda assim nos pega de surpresa. Um ano com 365 dias, 12 meses. Uma expectativa de vida que chega aos 82,25 anos no Japão, 73,2 no Brasil, mas que ainda assim continua tão icerta. Nem a matemática consegue decifrá-la. A rotina se mostra falha, a nossa sede por organização, por previsibilidade morre a cada dia em que ela se diz presente. Lavar o rosto e olhar-se no espelho sabendo que diante dele está a esperança em um mundo melhor. Do sonho que ficou no travesseiro e da realidade que a xícara de café desperta, às vezes sentimos que é difícil identificar qual é a diferença.

"O diabo na rua, no meio do redemoinho". Na rua, e sobre o ombro de cada um de nós. O caminhar até o trabalho é algo poético para mim. Cruzar o olhar com estranhos que também tiveram o despertar induzido por essa vontade de transformar suas vidas. Transformar não como fruto de uma ingratidão diante da vida, de um praguejar eterno de que "isso tudo é uma bosta", mas para que tudo possa continuar avançando.

Perdido nessa reflexão, vejo uma movimentação na padaria da esquina, onde as pessoas ainda se concentravam para terminar o seu café da manhã. Uma correria e de repente um barulho de tiro. Dois encapuzados fogem em uma moto e um senhor caí no chão, sangrando. "O diabo na padaria, no meio do redemoinho".

É finalmente sexta-feira, dia em que a diretoria iria comentar a apresentação da semana passada. "Você viu que o Felipe vai ser promovido? Parece que a diretoria gostou da análise que ele fez sobre a nova tendência do mercado.". O Felipe nunca encostou naqueles papéis que demorei 10 meses para escrever... Indignado, termino a noite num bar, tentando afogar a frase de Guimarães com copos de whisky que parecem surtir apenas um efeito sobre a nitidez de minha visão.

Na volta para casa, ao passar por uma encruzilhada, um mendigo se aproxima e diz: "o diabo na rua, no meio do redemoinho". Assustado, encaro o sujeito que se perde no breu das luzes mal distribuídas da avenida. Não me contenho e grito "EI! EI! O que o senhor disse?!" Ele não se vira, mas começa a correr. Empurrando o seu carrinho de super mercado repleto de tralhas, o barulho das rodinhas no asfalto me guiam ao desconhecido. "EI! EI!". Ao atravessar a rua, sou atingido em cheio por um carro de traseira preta, a última imagem que me lembro.

Acordo em um leito no hospital. Uma sede de vingança me domina; quero devolver ao mundo toda a ingratidão que até então recebi, encarnar em mim mesmo a frase que tanto queria evitar. "O diabo na rua, no meio do redemoinho". No ápice da loucura, minha filhinha que não via há alguns meses entra pela porta me trazendo um buque de flores. "Sare logo, papai", dizia o cartão com letras garrafais e de linhas bem tortas. O "S" de "sare" estava carinhosamente invertido. Ao meu lado reconheci o senhor da padaria, que me indicou com um olhar um segundo cartão de melhoras, dessa vez assinado pelo Felipe.

Hoje, a cada vez que me coloco frente ao espelho para lavar o rosto, encaro-me e me digo em voz alta "o diabo na rua, no meio do redemoinho". E saio de casa com um sorriso que nunca tive antes.



Termino com uma música de Gil Scott, que a cada vez que a escuto, me joga de volta para esse universo incompreensível:

Gil Scott - Me and the devil

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

Os olhos de Cesare Battisti

     Recentemente li uma reportagem sobre Cesare Battisti na revista Piauí. Não quero tomar aqui nenhuma posição sobre as atitudes de cada autoridade, brasileira e italiana, ou sobre o que deveria de fato ser decidido sobre sua situação legal. Quero apenas compartilhar um sentimento que enxerguei naquele homem e que tenho certeza de que é comum a todos nós.
     A reportagem começa narrando o lugar onde se deu a entrevista: na praia, em uma mesa de plástico de um quiosque à beira mar. Em seguida, o dia-a-dia do italiano é apresentado. Diferente do que chamaríamos de uma rotina de "curtição" para alguém que está em liberdade, a reportagem conta como ele passa o dia inteiro caminhando pelas areias desertas da praia carioca nos dias de céu cinzento. Joga pedras no mar e brinca com um garoto de nove anos que deu ao seu amigo mais velho o apelido de "piradinho". Quando pergutado se continua a escrever e a ler ele responde simplesmente que não, muito raramente. "Passei quatro anos fazendo isso quando estava preso. Agora quero cozinhar". Cozinhar? De preferência ao som de um blues e preparando um peixe recém pescado que ele teve o prazer de escolher a dedo em um mercado a céu aberto. Ao narrar, parece até poético, mas a simplicidade da tarefa não deixou de me martelar a cabeça. "Por que não ir a um restaurante com um blues ao vivo, como os numerosos barzinhos de jazz que temos na altura da Paulista em São Paulo?" Porque a liberdade é simples. Liberdade é poder viver com o gosto que esquecemos de saborear a cada segundo que passa. Ir a pé ao trabalho assobiando, ou poder tomar uma ducha quente num sábado de manhã após uma noite romântica com a namorada. Simples, mas idescretívelmente livre. Battisti teve que ser preso para entender o que isso significa. Nunca olhei em seus olhos, mas tenho certeza de que eles carregam essa certeza.

sábado, 18 de junho de 2011

Um vagão chamado mundo

Terça-feira; como de rotina estava pegando o metrô às 8h30 da manhã para ir ao trabalho. Ainda embalado pelo sono que não pôde ser terminado, mantinha meu pensamento no infinito, como todos ao meu redor. Perdido nesse coma, esbarro o olhar em uma pequena aranha abandonada no teto do vagão. Minúscula, quieta, esperando uma presa que tenho certeza de que nunca viria. Como ela foi parar ali em cima eu não fazia a menor idéia, mas ela estava lá, tranquila em seu pequeno mundo aracnídeo que se misturava com o nosso dia-a-dia agitado. Eu ainda tinha 10 minutos até o desembarque, então fiquei admirando aquele pequeno ser ingênuo que não sabia onde estava. "Pobrezinha, está com os dias contados", como costumamos dizer. E eis que percebi que a melhor alegria da minha nova amiga era justamente não ter consciência disso. Deu-se ao trabalho de construir uma teia que iria capturar unicamente suas pequenas patinhas solitárias, até que a próxima faxineira do metrô viesse para removê-la com uma vassourada cruel. Sem preocupação, sem desespero ela ficava lá, como se estivesse em qualquer outro lugar deste mundo: uma árvore, um campo florido, um vagão de metrô em Toulouse.
Ao descer, deixei a indefesa para trás, mas a sua inocente ingenuidade me acompanhou. "E nós, onde estamos?", acabei me perguntando. Acho que no fundo, não somos tão diferentes dela. Quem somos, para onde vamos, de onde viemos? Eis que a Terra se transformou em um grande vagão. Nesse instante, senti uma gratidão imensa por ser ignorante. Um grande presente, uma dádiva que nos faz acordar a cada dia e ir à luta - construir nossas teias, lutar para transformar este mundo, este grande metrô em um lugar melhor.




domingo, 29 de maio de 2011

Teia

Terminei um livro do Saint-Exupéry, "vol de nuit". Autor que admiro muito, não apenas pela sua biografia, mas sobretudo pela sutileza com que ele enxerga a vida. O livro em si é um pouco difícil de digerir no começo, mas o final justifica todo um enredo que antes parecia desconexo.

Enfim, o que quero compartilhar é que o livro coloca uma forte crítica a uma visão que defendi por muito tempo, de que as coisas carregam em si um sentido intrínseco que nos cabe enxergar, descobrir. Muito bonita mas pouco realista. Comecei a perceber isso conforme fui crescendo e vi a luta de cada um de nós, dia-a-dia, na busca de um sentido para este mundo. Essa questão no livro assume seu ápice na morte de um personagem; tema forte, mas que não chega a ser apelativo quando colocado pelas palavras de Exupéry. Quando é que começamos a sentir a perda de alguém? Aos poucos, quando percebemos que a dor não vem do fato em si, da morte, mas da teia de relações que deixam de fazer sentido para nós - o retrato na parede, o escritório vazio, o cachimbo que nunca mais deixou o criado mudo... São os sentidos que estão atrelados a cada um. Um sentido muito mais produzido do que intrínseco à cada objeto. E nesse processo criativo, nos tornamos então espécies de deuses, com o poder de dar sentido àquilo que tocamos, que criamos e que amamos? Não. Mas ao menos nos traz uma tranquilidade interior muito grande; não precisamos necessariamente nos tornarmos pessoas divinas que dizem compreender o sentido da vida para sermos alguém pleno interiormente. Somos todos humanos, cheios de sentidos, de relações; um ecossistema de dependências, causas e consequências. Mas ao mesmo tempo não somos livres de responsabilidades. Criar não se limita a produzir, mas a impulsionar essa grande teia para frente, que é a humanidade.

segunda-feira, 22 de junho de 2009

Acordei meio filósofo hoje. Olhava para o mundo como se ele quisesse me dizer algo; mas no fundo, acho que era eu quem queria escutá-lo. A sensação que essas manhãs me trazem é indescritível; é como voltar à infância e desenvolver aquele olhar curioso, no tempo em que a rotina ainda não existia. O "bom dia" sai com gosto e tudo parece funcionar. A verdade é que o mundo continua o mesmo, mas nós descobrimos a química de sorrir, para tudo. Acho que isso se chama magia de viver....

Divagando, quase me esqueci do que queria dizer. Acordei meio filósofo, não foi o que eu disse? Pois é, sinto que o mundo não está aí gratuitamente. Estamos tão mergulhados em nossos deveres que posicionamos tudo ao redor de nossos umbigos. Isso é muito triste, mas se chama homem moderno. Eu sou um homem moderno, sem dúvida, mas essa manhã eu fui criatura por algumas horas. E como isso é bom! É perceber que nossa agenda não é a coisa mais importante neste século. Dar-se a chance de observar cada detalhe como se atrás daquele rotineiro objeto houvesse um segredo esperando para ser espiado.
Quero repetir a todos que o mundo não está aí gratuitamente. Ele está aí para ser observado e nos ensinar. Lembrar a cada um a sua condição de criatura e fazer dela uma chance de colocarmos nossas intensas tarefas diárias ao nível da humildade. Ser humilde é a melhor coisa que podemos fazer para nossos egos.

sexta-feira, 1 de maio de 2009

A lição de Adão

"Dizem que Eva foi feita da costela de Adão; não para mim. Para mim Eva foi criada do insubstituível: da alma. Sim, minha Eva foi feita arrancando minha alma. Roubado fui, e a isso não dou a mínima; até chego a pensar que minha alma era baixa mercadoria para você. Tão baixa que um dia você fugiu, esse é o problema.
Minha querida, o mundo sozinho é um lugar estranho. O céu fofo de antes ficou tão longe, as estrelas mornas se tornaram passado morto e o mais pesado é saber que aqueles que amamos precisam um dia partir. Como você.
Tudo se tornou perecível, passageiro; acho que não vale à pena amar, muito menos o meu amor por você! Não entendo, por que me abandonou? Sou amaldiçoado por amar? É isso? Prefiro ser uma pedra então, antes isso a ter o peito sempre gélido!"

Meu nome é Adão. Escrevi isso a um tempo atrás. Eu mudei, mas o mundo acredito que não, porque está forrado de pessoas como eu fora: Adão sem Eva, sem alma. Por isso, quero dizer a todos algumas coisas:

-O tempo mostra que o céu permanecerá distante pelo infinito enquanto Eva estiver longe. E esse infinito significa até onde demoramos para entender que ela não fugiu, mas que nos deu a liberdade. Eva está em tudo aquilo que conseguirmos amar.

-Amar não significa se sentir bem, nem completo. Amar é fazer-se de instrumento para que o outro possa se sentir bem e a nossa plenitude é simples consequência disso. Se um dia se sentir infeliz é porque não está amando de fato.

-Eva nos amou e continua a nos amar.

-E para terminar, saibam que tudo perece realmente, mas não para tornar nosso esfoço vão, e sim para que aprendamos a dar valor a tudo.

À minha família, ao pessoal do Centro Sumaré e a todos que me apoiaram em tempos difíceis.

sábado, 18 de abril de 2009

Bom dia!

Todos trabalhamos com objetivos. Uns mais, outros menos; mas todos precisam de um foco. Não exatamente para poder alcançar algo na vida, mas porque é uma necessidade humana: não conseguimos aceitar a vida simplesmente como um mar que guia o nosso barquinho à deriva.
Entretanto, aos recém completados 21 anos de idade, posso dizer que só isso não me basta. Não me basta porque percebi a engenhosidade da coisa: trabalhar, missão cumprida e lá vem denovo a necessidade de uma nova meta. É a depressiva pergunta "até onde isso vai durar?!". Depressiva porque a rotina nos enfadonha; a mim e a todo ser humano deste planeta.
O que falta é perceber a real regra do jogo: a felicidade não é tão manipulável como imaginamos. É humildade para aceitar o fato de que a vida é para ser vivida. Não como o carpe diem propõe, mas reconhecendo nossos limites. É parar para simplesmente notar como uma simples noite estrelada pode nos fazer feliz. E ela está lá em cima sempre! Da mesma forma com que a vida inteira se extende diante de nós e nos diz: "lhe darei o maior presente de todos, a chance de acordar a cada manhã". E do acordar criamos a chance de fazer diferente, a criatividade para tornar cada dia único e deixar que o amor, com suas carícias e dores, nos diga o que é felicidade, não que nossos objetivos mesquinhos o façam.

sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

Mão invisível, um BigMc por favor

No centro do redemoinho, é inevitável abrir o jornal e se deparar com várias matérias a respeito da tão falada crise econômica. Nos trinta minutos que tenho de break, entre as garfadas que deposito na marmita, sempre acabo lendo algo; não com o intuito de me meter a economista, mas simplesmente porque quero praticar meu inglês. E nesse lack de objetividade, pela primeira vez um artigo conseguiu arrancar o garfo da minha mão para colocá-la sob o meu queixo. Não se trata de um plano revolucionário para resolver nossos problemas, não, mas leva à reflexão. O artigo era mais ou menos o seguinte:

Depois de Newton, todas as ciências tentaram acomodar-se na noção mecanicista de mundo. A economia não foi uma exceção: a mão invisível dizia que poderia haver alguns passos para fora do caminho, mas de forma geral ela garantia que a humanidade caminhava racionalmente para o progresso. O liberalismo teve seu lugar na história para mostrar isso. Entretanto, atualmente essa teoria não explica o que presenciamos. Não pode haver um número tão grande de pessoas, se assim posso dizer, "burras" capazes de desviar o percurso dos passos para a crise. E qual foi a explicação do colunista americano? As pessoas pensam diferente. Não somos um cérebro gigante e altruísta que tenta buscar a evolução, como o liberalismo acreditava; somos sim mentes egocêntricas, preocupadas em desviar a estória inteira se necessário para que possamos comer um BigMc. O capitalismo é a encarnação desse modo de viver e nossa sociedade, agora chamada de globalizada, nunca antes pareceu tão cofinada. Pois é, a lei da selva é olho por olho, dente por dente. 

Será que estamos presenciando o início de uma drástica mudança? Ou será apenas a repercussão de uma era que acaba de ter início? Não sei, apenas posso garantir que o mundo não está disposto a cruzar os braços e esperar que simplesmente nos cansemos de sermos mimados. Ou crescemos e encaramos o mundo com olhos abertos para ele ou então continuamos olhando apenas para nossas panças Mc fartas e esquecemos que existe um mundo além de nossos umbigos.

quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

Em busca de um conceito para "existência"

Tentando sair um pouco da inatividade, aqui vão algumas idéias que estive matutando durante um tempo:



"Penso logo existo". A máxima de Descartes sempre me pareceu muito lógica; lógica porque acreditamos ter um conceito forte do signifiado de existir. Mas percebi que esse conceito infelizmente não passa de intuição. Colocar um "ok" em Descartes exige, portanto, nos perguntarmos primeiramente o que entendemos por "existir".

O desmoronamento começa no momento em que tentamos definir a existência de algo simplesmente analisando se ele ocupa um lugar no espaço e no tempo. Cometemos um grave erro: nossa cosciência é atirada à lata lixo (até onde eu saiba nenhum necrotério conseguiu abrir a cabeça de alguém e achar a dita cuja). Pois é, o que antes parecia tão claro se torna um verdadeiro enigma, não temos certeza sobre a existência das coisas!

A solução que encontrei seria quebrar a existência em dois conceitos:

1. Existência física: algo existe fisicamente se ele ocupa lugar no espaço. Por que não no tempo? Para mim não há uma separação entre tempo e espaço. Simplesmente porque não conseguimos imaginar nada que ocupe apenas lugar no tempo. Esse grupo agrupa o universo que conhecemos e nosso corpo físico.

2. Existência consciente: algo existe se dele estamos cientes. Para mim esse segundo conceito nos fornece um segundo mundo semelhante àquele proposto por Platão com o mundo das idéias. Esse conceito dá existência à nossa consciência (pois estamos cientes sobre nós mesmos) e a muitas outros exemplos que aparentemente poderiam apontar para o anonimato. O zero por exemplo, não existe fisicamente mas em consciência ele existe sim, tanto que o utilizamos largamente na matemática (o mesmo vale para o infinito); Deus, uma ética universal e assim por diante. É um mundo bem à parte, mas que sempre esteve presente guiando e auxiliando o ser humano.

Essa idéia está bem imatura, mas por isso mesmo coloquei ela na linha de fogo. Particularmente gostei muito de alguns resultados que ela nos dá. Pretendo amadurecê-los o publicá-los. Claro, há muitos buracos mas são justamente eles que fazem a idéia se desenvolver. Se for preciso, irei alterar a segunda definição ou então voltar à prancheta e buscar novamente alguma definição única.

sábado, 4 de outubro de 2008

Borghesi e o niilismo otimista

Hoje fui a uma palestra do filósofo italiano Massimo Borghesi, promovida pelo IFE (o meu muito obrigado ao Julio pelo convite). Não consegui compreender tudo, até porque não tenho a mínima noção de italiano, mas o esforço que Borghesi fez para falar um italiano espanholizado valeu a pena. Do pouco que entendi, saiu esse texto:

Borghesi identificou de uma maneira espetacular o problema depressivo do homem moderno: o niilismo otimista, como ele chamou.

Para niilismo otimista o mundo em si não possui objetivo; até ai nada de novo, mas o que ele identificou perfeitamente foi a substituição dessa falta de objetivo por um mundo ilusório, capaz de confortar o homem moderno da angústia que advém dessa carência. Todo o significado de vida passa então a ser subjetivo e é dada bandeira branca para o ego subir ao palanque e gritar: "sou capaz de guiar a mim mesmo. Meu objetivo de vida é meu e o mundo nada tem a ver com isso".

Nunca antes foi tão cômodo pensar dessa forma como nos dias de hoje. Vivemos repletos de tecnologias capazes de criar essa pseudo realidade confortável o suficiente para sustentar esse triste modo de pensar. Particularmente, acho que a trilogia Matrix faz uma ótima comparação com o niilismo otimista. Trocamos o objetivo de vida, que Neo após despertar teve que carregar, pelo comodismo da parafernalha tecnológica moderna, os prazeres de matrix. Da mesma forma que no filme, as pessoas simplesmente ignoram a existência de um sentido de vida e acomodam-se neste mundo que a burguesia é capaz de sustentar. Eis o porquê de nossos ícones estarem limitados a grandes executivos bilhonários e artistas que levam uma vida de carpe diem perfeita. É a falta de para onde caminhar! E no cenário dessa falta nos afogamos em comodismos que, pela própria natureza vã do fim neles mesmos, trás a angústia do homem moderno. Somos carentes de ícones, de motivos, de pés que saibam para onde andar. Sofremos e não sabemos o motivo, ou melhor, ignoramos os motivos, até que 50 anos de nossas vidas passem e percebamos a falsa realidade que criamos ao nosso redor e a sua capacidade limitada de nos fornecer apenas falsa felicidade.

domingo, 6 de julho de 2008

O amor como caminho de vida


Sempre pensei que o amor fosse o guia definitivo do homem, aquilo que nos leva ao que é necessariamente bom - aqui, o amor não se restringe apenas à relação homem-mulher, que fique claro. Há vários motivos para isso; podemos ir desde aqueles com um sentido mais metafísico até os construídos de forma lógica. Entretanto, veremos mais à frente que ambos são erguidos em suposições falsas.


Ao lembrar que se chegamos a Deus (ou a qualquer outro Fim cujo nome varia de acordo com a religião) através do amor, então basta ter confiança naquilo que nosso coração diz, numa linguagem um pouco romântica, e nosso caminho estará correto. O mesmo se aplica à lógica de que uma pessoa não amará aquilo que a prejudica e, portanto, o que não é bom. Generalizando: amar é buscar a Verdade, correto? Parcialmente.

O responsável por essa falsa conclusão é supor que o amor é único. Na verdade, existem vários tipos de amor e é em apenas um deles que podemos fundamentar o nosso caminho de vida. Para se perceber isso basta olhar para os presídios. As pessoas que ali estão não praticaram boas ações, mas nem por isso podemos dizer que não amam. Podemos, isso sim, dizer que não amam verdadeiramente.


Para entender melhor o porquê disso é preciso perceber que se algo é de fato bom ele o deve ser para todos. Assim, o amor se divide entre o universal (verdadeiro) e o individual (falso).


A história está repleta de exemplos. O Nazismo é um dos maiores. Certamente Hitler não era um ser único que não amava, mas sim alguém com uma noção errada do que é amar. A raça germânica era a única que merecia seus olhos, todas as demais deveriam sofrer as conseqüências desse monofoco; uma visão jamais universal e, portanto, descomprometida com o que é Verdadeiro. Os resultados falam por si.


O grande problema que vejo é que, mesmo com tantos fatos que clamam pelo nosso aprendizado, continuamos a agir de forma não universal, ou egocêntrica para ser mais simplista. Vivemos em uma sociedade tarada pelo umbigo; desde crianças a motivação está em provar para todos que somos/seremos o orgulho encarnado. A felicidade depende do status, o caminho de vida está no status e o falso amar nunca antes pareceu tão verdadeiro. Resultado: o que vemos infelizmente não são pessoas plenas, mas asilos deprês, quarentões com a famosa crise do "agora não tem volta" e grandes referências de felicidade terminando suas carreiras no suicídio. Não é pessimismo, são fatos.


Assim, proponho trocarmos o atual caminho de vida baseado em sermos alguém por um outro baseado no tornar todos alguém; trocar o amor falso pelo verdadeiro, universal. E dessa forma transformar a história numa exposição de fatos que tragam orgulho à humanidade.

Termino com um trecho bíblico: 1 Coríntios 13

"A excelência do amor

Ainda que eu falasse as línguas dos homens e dos anjos, se não tiver amor, sou como o sino que soa, ou como o símbalo que retine. Mesmo que eu tivesse o dom da profecia, e conhecesse todos os mistérios e toda a ciência. mesmo que tivesse toda a fé, a ponto de transportar montanhas, se não tiver amor, não sou nada. Ainda que distribuísse todos os meus bens em sustento dos pobres, e ainda que entregasse o meu corpo para ser queimado, se não tiver amor, de nada valeria!
O amor é paciente, o amor é bondoso. Não tem inveja. O amor não é orgulhoso. Não é arrogante. Nem escandaloso. Não busca os seus próprios interesses, não se irrita, não guarda rancor. Não se alegra com a injustiça, mas se rejubila com a verdade. Tudo desculpa, tudo crê tudo suporta.
O amor jamais acabará. As profecias desaparecerão, o dom das línguas cessará, o dom da ciência findará. A nossa ciência é parcial, a nossa profecia é imperfeita. Quando chegar o que é perfeito, o imperfeito desaparecerá."

segunda-feira, 26 de maio de 2008

Plenitude




O ser humano tem a bela habilidade de alterar o mundo que o circunda; um alterar bem mais profundo do que o apenas físico: ele altera o mundo em beleza, em vivência. Somos movidos pelo que chamamos de amor e com ele movemos tudo ao nosso redor. Norteados por esse sentimento, realizamos diariamente diversas tarefas que procuram melhorar nossas vidas.

Acho isso muito bonito, mas não posso deixar de observar que, mesmo diante de tantas belas obras feitas pelo homem, no fundo não sabemos amar verdadeiramente."Amo-te não por quem és, mas sim por quem sou quando estou contigo", disse Gabriel José Garcia Marquez. Vejo nessas palavras o erro que temos cometido: o modo como amamos busca antes de tudo a felicidade pessoal e todos os belos resultados que disso conquistamos não passam de simples conseqüências. Acredito que houve uma inversão na ordem desses acontecimentos, o grande responsável pelo falso sentido de vida na busca insaciável por serotonina e cia.

Os gregos já haviam percebido essa falha quando enquadraram o amor verdadeiro na procura do belo (no sentido amplo que eles desenvolveram), do bom. Mas eu me arrisco a ir além, em dizer que amar verdadeiramente é compreender a dualidade que rege nossas vidas. Perceber que se existe o sofrimento é para que a alegria também possa existir, se existe o mal é para que o bem também exista e assim por diante. É respeitar essa Lei e aceitá-la, é dizer "em tudo dai graças", lutar para defender a vida que se exprime em cada canto do desejável e do indesejável. Nas palavras de Fernando Pessoa, é perceber a insolidez do que temos por bom ou por mau, como o Tejo que é o "mais belo que o rio que corre pela minha aldeia, mas o Tejo não é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia porque o Tejo não é o rio que corre pela minha aldeia". É captar o brilho constante que tudo emana e agir não em prol da conseqüência, mas do objetivo que é viver e defender toda essa vida.
O resultado disso é uma felicidade a qual quero dar um outro nome: plenitude.

domingo, 13 de abril de 2008

Redenção

Este mundo não está abandonado ao acaso, disso podemos ter a maior certeza a cada nova descoberta da ciência. Vivemos em meio a causas e efeitos. Causas e efeitos que, para muitos, acabam por se tornar uma prisão, um destino incontornável.

Diante disso, as religiões nos trazem diversos caminhos para a conquista da liberdade, como a vida após a morte e a fuga do círculo de reencarnação e morte. Mas onde entramos nesse processo? Qual é a capacidade que temos para mudar esse destino incontornável?

Na busca pela resposta, achei muito pertinente um trecho do livro "Sidarta" de Hermann Hesse. Ele faz parte de um diálogo entre Sidarta e Buda:

"Nessa doutrina, tudo fica completamente claro. Tudo é demonstrado. Tu mostras o mundo sob a forma de uma corrente perfeita, jamais e nenhures interrompida, corrente eterna, constituída de causas e efeitos. Nunca, em parte alguma, isso se percebeu com tamanha nitidez, nem tampouco foi exposto tão irrefutavelmente. Realmente, os corações de todos os brâmanes deverão vibrar de alegria, quando seus olhos enxergarem o cosmo através de tua doutrina, esse cosmo que forma um conjunto inteiriço, sem lacunas, límpido como cristal, não dependente nem do acaso nem dos deuses. Se o mundo é bom ou mau, se a vida em seus confins é sofrimento ou prazer, essa pergunta pode permanecer sem resposta. Pode ser que aquilo tenha pouca importância. Mas a unidade do mundo, o nexo existente entre todos os acontecimentos, o fato de todas as coisas, tanto as grandes como as pequenas, estarem incluídas no mesmo decorrer, na mesma lei das causas, do devir e do morrer - tudo isso, ó Augusto, ressalta luminosamnte na tua excelsa doutrina. Mas, nessa mesma doutrina, há um único lugar em que tal unidade e lógica das coisas estejam interrompidas. Por uma minúscula lacuna penetra na unidade desse mundo um elemento estranho, novo, que antes não existiu, que não pode ser mostrado nem comprovado. Refiro-me à tua tese acerca da possibilidade de superarmos o mundo e alcançarmos a redenção. Ora, essa pequníssima lacuna, essa pobrechazinha, basta para destruir e liquidar toda a unidade e eternidade da lei cósmica."

Se o mundo é de tal forma constituído por causas e efeitos, quem somos para, por nós mesmos, por nossas próprias ações, mudarmos toda essa lei universal para, assim, "superarmos o mundo e alcançarmos a redenção"? Para mim, uma vez evidenciado esse paradoxo, resta-nos apenas duas opções: ou negamos a ordem do universo, colocando-o numa espécie de anarquismo cosmológico onde o homem, pela sua capacidade racional, pode ordená-lo; ou então baixamos nossas pequenas cabeças e, com humildade, reconhecemos que a conquista dessa liberdade cabe ao arbítrio de Outrem.

domingo, 30 de março de 2008

Perda do sentido da forma



Assisti a um espetáculo de dança japonesa que segue um estilo bem singular chamado "Butoh". A apresentação ilustrou muito bem o que o filósofo italiano Giovanni Reale chamou de "perda do sentido da forma" . Para compreender o que isso significa, tentarei explicar brevemente o é o Butoh: é uma tentiva de colocar o dançarino em contato com a sua origem, deixando que o corpo ganhe total liberdade sobre a mente e se responsabilize por esse retrocesso. "It is a dance that has as much to do with meditation or martial art training as it does to dance in the conventional sense. It derives its power from what the individual who dances it brings to it in a very mental as well as physical sense. It is a directing of energy to the audience from the surroundings, the environment and the audience themselves as much as from the mind in a way similar to how a pastry chef uses a paper cone to direct the icing onto a cake." Para finalizar o entendimento do Butoh, segue abaixo algumas apresentações.




http://www.youtube.com/watch?v=r4sDp_1brFg&feature=related


Fica claro que os dançarinos se reduzem a apenas corpo; a consciência e mesmo a emotividade deles estão muito distantes do palco. Para mensurar esta distância, é interessante citar a influência que um estudo sobre os movimentos que uma "galinha" realizava após ter sido decepada tem sobre a dança. Diante disso, surge a "perda do sentido da forma" que Giovanni Reale comentou em seu livro"O Saber dos Antigos - Terapia para os dias atuais". Para ele, a forma não passa de um reflexo do que o interior dos objetos reserva, ela não existe por si, não caminha por si, não tem significado se não o de refletir a verdadeira beleza. E lembra que, disso, Platão já tinha plena consciência quando escreveu que "a beleza física representa apenas o grau mais exterior e mais baixo da própria beleza. A verdadeira beleza é a interior (...) a verdadeira beleza, a divina, não está no cormpo mas na alma, e é esta que é realmente preciosa".

Mas não é só a arte que tem abandonado o sentido da forma, através do distanciamento das idéias aos objetos pela super valorização da abstração; mas também a própria visão de amor. Não que seja errado amar aquilo que é belo exteriormente; aliás, deve-se buscar essa qualidade pois ela também faz parte do que é plenamente belo, mas, justamente, quando amamos buscamos essa beleza completa, que parece ter sido esquecida. Basta assistir a uns 15 minutos de novela para se evidenciar isso.Para mim, a perda do sentido da forma na arte é apena a pontinha do iceberg do falso amar.

Maiores informações sobre o Butoh:

http://www.butoh.net/

http://www.ne.jp/asahi/butoh/itto/butoh-e.htm

domingo, 9 de março de 2008

O gosto do vivo



Qual o gosto do vivo? Para descobrirmos, precisamos saber adivinhar a realidade, enxergando além dos olhos e cultivando a fome maior:


"Não é para nós que o leite da vaca brota, mas nós o bebemos. A flor não foi feita para ser olhada por nós nem para que sintamos o seu cheiro, e nós a olhamos e cheiramos. A Via-Láctea não existe para que saibamos da existência dela, mas nós sabemos. E nós sabemos Deus. E o que precisamos Dele extraímos. (Não sei o que chamo de Deus, mas assim pode ser chamado.) Se só sanbemos muito pouco de Deus, é porque precisamos pouco: só temos Dele o que fatalmente nos basta. Só temos de Deus o que cabe em nós mesmos que não somos bastante. Sentimos falta de nossa grandeza impossível - minha atualidade inalcançável é o meu paraíso perdido.


Sofremos por ter tão pouca fome, embora nossa pequena fome já dê para sentirmos uma profunda falta do prazer que teriámos se fôssemos de fome maior. O leite a gente só bebe o quanto basta ao corpo, e da flor só vemos até onde vão os olhos e a sua saciedade rasa. Quanto mais precisarmos, mais Deus exite. Quanto mais pudermos, mais Deus teremos.

(...)

Se abandono a esperança, estou celebrando a minha carência, e esta é a maior gravidade do viver. E, porque assumi a falta, então a vida está à mão. Muitos foram os que abandonaram tudo o que tinham, e foram em busca da fome maior.

(...)

Toda a minha luta fraudulente vinha de não querer assumir a promessa que se cumpre: eu não queria a realidade.


Pois ser real é assumir a própria pormessa: assumir a própria inocência é retomar o gosto do qual nunca se teve consciência: o gosto do vivo." - A Paixão segundo G.H, Clarice Lispector.


A fome de se viver desapereceu em muitos, e com ela também desapareceu a realidade. Essa troca pode parecer tentadora a princípio - "toda a minha luta fraudulente vinha de não querer assumir a promessa que se cumpre: eu não queria a realidade" - mas revela no fundo um grande medo da verdade, de se provar o gosto do vivo. Não estou sugerindo que vivemos em uma espécie de matrix, onde nossos sentidos se dissolvem em ilusões. Pelo contrário, acredito que eles são pontes para a realidade adivinhada; mas não podemos esquecer que eles são apenas pontes e não a margem que se quer alcançar. A pequena fome que valorizamos atualmente detém-nos sobre o rio - tudo em prol de estarmos com nossos sentidos satisfeitos - mas esquecemos que a realidade nos reserva todo um mundo do outro lado das águas. Novamente, não estou negando a realidade que temos, só estou defendendo que, assim como o leite não existe para nós bebermos, mas nós o bebemos; também o seu verdadeiro sabor existe, um gosto de vida que até agora não adivinhamos.

domingo, 2 de março de 2008

Motivos

Antoine Saint Exupery

Sei que martelo um pouco no assunto de "sentido da vida", mas acredito que é um tema que nunca deve ser abandonado até que fique claro para cada um. Diante disso, mais um belíssimo texto do francês Saint Exupéry pertencente ao seu livro "Terra dos Homens". Espero que sirva de orientação para esse mundo considerado como globalizado, mas que possui um Oriente e um Ocidente com claras divergências, além de uma África que foi esquecida por todos.

"Para compreender o homem e suas necessidades, para conhecê-lo no que ele tem de essencial não é preciso opor, umas às outras, as evidências de vossas verdades. Sim, vós tendes razão. A lógica demonstra tudo. Tem razão mesmo aquele que lança todoas as desgraças do mundo sobre os corcundas. Se declaramos guerra aos corcundas logo aprenderemos a nos exaltar. Vingaremos os crimes dos corcundas. E certamente os corcundas também comentem crimes.
É preciso, para tentar distinguir o essencial, esquecer por um momento as diviões que, uma vez admitidas, arrastam todo um Alcorão de verdades intocáveis, e o fanatismo conseqüente. Podem-se classificiar os homens em homens da direita e homens da esquerda, em corcundas e não corcundas, em fascistas e democratas, e essas distinções são inatacáveis. Mas a verdade, vós o sabeis, é o que simplifica o mundo, e não o que gera o caos. A verdade é a linguagem que exprime o universal. Newton não "descobriu" uma lei que estivesse durante muito tempo dissimulada, como a solução de uma charada. Newton efetuou uma operação criadora. Fundou uma linguagem de homem que pode exprimir a queda da maçã na terra e a ascençsão do sol. A verade não é o que se demonstra, é o que simplicifca.
De nada vale discutir ideologias. Se todas se demonstram, todas também se opõem, e tais discussões fazem desesperar da salvação do homem. Isso quando o homem, em toda parte, ao redor de nós expõe as mesmas necessidades.
Queremos ser libertados. O que dá uma exadada no chã quer saber o sentido dessa enxadada. E a enxadada do forçado (prisioneiro), que humilha o forçado, não é a mesma enxadada do lavrador, que exalta o lavrador. A prisão não está ali onde se trabalho com a enxada. Não há o horror material. A prisão está ali, onde o trabalho da enxada não tem sentido, não liga quem o faz à comunidade dos homens.
E nós queremos fugirda prisão."
itálico acrescentado

E quem não quer? Pena que muitos acabam se contentando com a situação quando olham o corcunda ao lado, preso em sua solitária. Todo o podre deste mundo é culpa dele, e eis que a nossa jaula se converte em um paraíso. Até quando?

domingo, 17 de fevereiro de 2008

Brilho Oculto


Hoje ouvi uma estória muito bonita de um grande amigo meu, preciso compartilhá-la com todos!


Este amigo trabalha em uma editora cuja dona possui um filho com dificuldades (possui seus quarenta anos, mas uma idade mental de uma pessoa de 12). Apesar disso, ele também tem seu emprego na editora e seus admiradores: "Ele é um exemplo de vida para mim. Nunca o vi triste, está sempre a sorrir e a tratar todos com muita alegria. Na última vez em que estive lá estavam o diretor financeiro, o de RH e o admistrativo reunidos logo ao final da escada. De repente, o nosso protagonista invade a conferência com uma entrada teatral - desceu a escada aos saltos como se dois ou três degraus formassem um único apenas - e lá embaixo não se conteve e disse:"esse é o melhor lugar do mundo!!!" e seguiu com o seu sorriso pelo corredor".

Não tenho dúvidas de que muitos optariam por um aborto diante da notícia de que um filho com tais dificuldades está por vir. Mas por que matar tamanha alegria? É o exemplo cabal de que a felicidade não é algo para ser alcançado e sim vivido. Estamos sempre caçando-a com objetivos, como se esses fossem os responsáveis por nos satisfazer eternamente, e esquecemo-nos de como a vida é bela agora. É incrível como um corte de cabelo que não ficou bom ou então um apartamento longe da beira-mar impedem muitas pessoas de serem felizes. As pequenas coisas da vida estão sempre brilhando, basta sabermos notar isso. Há algo mais satisfatório do que olhar para o infito e sem motivo algum pensar: "como é bom viver"?


Para quem gostou da foto, ela é do fotógrafo brasileiro Renan Cepeda. Segue o site do mestre: http://www.renancepeda.com/