sábado, 18 de junho de 2011

Um vagão chamado mundo

Terça-feira; como de rotina estava pegando o metrô às 8h30 da manhã para ir ao trabalho. Ainda embalado pelo sono que não pôde ser terminado, mantinha meu pensamento no infinito, como todos ao meu redor. Perdido nesse coma, esbarro o olhar em uma pequena aranha abandonada no teto do vagão. Minúscula, quieta, esperando uma presa que tenho certeza de que nunca viria. Como ela foi parar ali em cima eu não fazia a menor idéia, mas ela estava lá, tranquila em seu pequeno mundo aracnídeo que se misturava com o nosso dia-a-dia agitado. Eu ainda tinha 10 minutos até o desembarque, então fiquei admirando aquele pequeno ser ingênuo que não sabia onde estava. "Pobrezinha, está com os dias contados", como costumamos dizer. E eis que percebi que a melhor alegria da minha nova amiga era justamente não ter consciência disso. Deu-se ao trabalho de construir uma teia que iria capturar unicamente suas pequenas patinhas solitárias, até que a próxima faxineira do metrô viesse para removê-la com uma vassourada cruel. Sem preocupação, sem desespero ela ficava lá, como se estivesse em qualquer outro lugar deste mundo: uma árvore, um campo florido, um vagão de metrô em Toulouse.
Ao descer, deixei a indefesa para trás, mas a sua inocente ingenuidade me acompanhou. "E nós, onde estamos?", acabei me perguntando. Acho que no fundo, não somos tão diferentes dela. Quem somos, para onde vamos, de onde viemos? Eis que a Terra se transformou em um grande vagão. Nesse instante, senti uma gratidão imensa por ser ignorante. Um grande presente, uma dádiva que nos faz acordar a cada dia e ir à luta - construir nossas teias, lutar para transformar este mundo, este grande metrô em um lugar melhor.




2 comentários:

isabela midori shibutani disse...

o que eu acho curioso dessas situações é que quando repentinamente elas acontecem, nos pegamos pensando sobre isso durante o resto do dia, da semana, e assim vai.
e essa é uma visão que eu gosto bastante. acho que a vida pode ser muito simples. sem frescura, sem vergonha, sem medo do que irão pensar. não precisamos estar certos o tempo inteiro. porque muitas vezes não sabemos nem para onde estamos indo (o que conseguimos ver naqueles momentos em que paramos por um segundo e pensamos: nunca imaginei que eu estaria aqui, fazendo o que faço, indo para onde este vagão me leva)
é o gosto de viver.

Rodrigo Diana disse...

pois é, saber aceitar a simplicidade da vida é um grande desafio ;)
não que ela em si seja simples, mas temos que aceitar certas condições que nos são inerentes e que implicam nessa simplicidade que não conseguimos enxergar. Por isso que eu achei essa comparação com a aranha no metrô tão perfeita =)